O debate ganhou força nos últimos tempos e alçou voo alto na segunda-feira depois que o Palmeiras ganhou do Sport como quem chupa um picolé para em seguida o Flamengo surrar o Vitória como se tivesse enfrentado um time de bairro do Campeonato Carioca. Nos dois casos era Campeonato Brasileiro, Série A, a elite do futebol no Brasil, em campo.
Mas Sport e mais ainda o Vitória pareciam sparrings despreparados diante de seus adversários poderosos.
Talvez o primeiro problema no debate seja o nome que ele recebeu: “espanholização”. Em tempos de redes sociais em que a literalidade ofusca qualquer outra forma de comunicação, o termo parece inadequado. Afinal, Palmeiras e Flamengo não ganham praticamente tudo o que disputam, embora estejam todo o tempo próximos disso. O observador literal vai sempre dizer que o Botafogo é o campeão brasileiro e da Libertadores, que o Fluminense ganhou a América há dois anos e que o Atlético-MG foi o intruso outro dia para derrubar a tese de domínio sólido da dupla Palmeiras e Flamengo. E que na Espanha não é assim porque lá Real Madrid e Barcelona são muito maiores do que o restante.
Podemos mudar o nome. Mas tapar os olhos para o que acontece eu chamaria de autoengano. Palmeiras e Flamengo são, com alguma folga, os clubes mais poderosos do Brasil há quase dez anos e não há perspectiva a médio prazo de alguém que entre neste clube restrito com solidez. O Botafogo? Conseguiu por uma temporada e com investimento biônico insustentável como está claro hoje. O mesmo fez o Galo, que elevou sua dívida para a casa dos R$ 2 bilhões. Como vai sair deste buraco?
Se ninguém tem cartas para entrar de vez na turma dos poderosos a médio prazo, significa que este domínio vai durar, o que representará uma hegemonia maior do que qualquer outra já vista na história do futebol brasileiro. Nem o Santos de Pelé nem o São Paulo de Telê nem o Flamengo de Zico tiveram um domínio por tanto tempo na história.
Muito se fala das torcidas imensas e de grandezas locais que não podem ser desprezadas para se crer que o futebol brasileiro é mais equilibrado do que ele realmente é. Enquanto este esporte no País foi regionalizado, com Estaduais relevantes, esta regra valeu. Hoje, é apenas um quadro desbotado na parede. É difícil para quem foi criado em um ambiente completamente imprevisível e com disputa pensar que as conquistas ficarão para um grupo cada vez mais restrito de clubes. É dificílimo, para mim, pensar nisso. Mas é o que estamos vendo.
Um bonde passou recentemente e embarcaram nele apenas dois clubes, Palmeiras e Flamengo. Hoje, chegaram confortavelmente ao seu destino. Os próximos bondes passarão lotados ou sem horário certo. É muito mais difícil embarcar agora. Para alguns, já se tornou impossível.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do BandSports.






