Se precisar, peça ajuda! Talvez você tenha ouvido esse conselho de algum parente que te ama. Alguém que na sua infância já entendia que nem sempre somos capazes de lidar sozinhos com as dificuldades da vida. Naturais dificuldades. Porque sempre temos o que aprender, sempre teremos novos desafios e porque demora mesmo para dominar uma nova habilidade. Se precisar, peça ajuda! A humanidade se desenvolveu porque encara o ambiente como desafio à sobrevivência.
De nosso passado nômade aprendemos a habitar todos os biomas desse belo planeta que, hoje sabemos, estamos destruindo. Aprendemos também a dominar a natureza da qual somos feitos, e inventamos formas de viver mais e melhor. Poderosos? No coletivo talvez, mas em nossa perspectiva individual somos fracos e sempre precisaremos de ajuda. Na aventura da vida, somos um coletivo em evolução. Homens e mulheres de todas as idades somos atraídos pelos desafios que a natureza oferece ao nosso atrevimento. Uma montanha, um oceano, montanhas, desertos de gelo ou areia. Sempre haverá homens e mulheres buscando algo além.
Há trinta e nove anos Erlich Cordão cansou de encarar sozinho os caminhos que ligam seu amado Piauí ao vizinho Ceará. Moderno amante das motos, surfou as ondas dos enduros de moto que se criavam ainda nos anos 1980 do século passado. Empreendedor desde cedo, resolveu desafiar a descrença de quem achava que enduro seria apenas coisa de mineiros, paulistas e gaúchos. Aprendeu observando e realizando provas como o Enduro do Jenipapo, em 1986, e alçou voo nas asas de um sonho antigo, ligar seu Estado e o atraente vizinho Ceará com o Enduro Cerapió a partir do ano seguinte.
Com a ajuda de amigos, alguns relutantes, e organizado pela esposa, Flávia, sua energia pioneira foi agregando fadas madrinhas e moedas douradas no “game” dos esportes e do turismo no Brasil. Hoje, seu Cerapió ou Piocerá (dependendo de onde a prova se inicia), completou 39 anos, fazendo novos amigos em trilhas e “balaios” num Nordeste brasileiro que não apenas ama as motos, mas depende delas para sua mobilidade. Mas o que é um enduro? Uma forma brasileira de rally de regularidade, ou seja, os participantes têm de seguir um mapa que determina as rotas e as velocidades de cada trecho de um deslocamento de carro ou moto. Vence quem ficar no caminho determinado mantendo a média. Perdem pontos quem anda atrasado, mas perde ainda mais pontos quem anda adiantado do tempo indicado. A tarefa não é nada simples, porque no caminho das motos existem as trilhas apertadas e cheias de pedras ou lama. Para os carros, além dos buracos, passagens por dentro de rios podem estar no percurso.
Pilotos competindo por troféus nesses eventos, naturalmente sabem que se forem depender apenas de suas habilidades individuais terão menos chances de chegar ao destino final entre Teresina e Fortaleza. Unidos nessa disputa formam um comboio, visto de cima parece uma serpente de 300 veículos sob sol e chuva do “inverno” nordestino. Na prova das motos as serras separaram os homens dos meninos. Habilidade, preparação física e técnica, experiência de vida contam muito sobre motos. Mas quando alguém fica encalacrado num degrau de pedra ou tronco no caminho pode apostar que só com alguma ajuda isso se resolve. Porque quem vem atrás não tem alternativa senão ajudar. Só passa uma moto por vez.
Entre 25 e 31 de janeiro fui de novo acompanhar essa aventura. As motos e carros são bem diferentes daqueles que vi em ação em 1987, mas os pilotos e suas motivações seguem idênticos: vencer o desafio inútil de subir uma serra. Ao invés do asfalto que contorna facilmente o forte aclive, eles se embrenham no mato para testar seus limites, do corpo e da mente. As motos são apenas o veículo. A serra é só um pretexto. Vencer a prova é até bacana, mas no fundo ninguém aqui veio para isso. Vieram juntos, vão sair juntos e vencem juntos. A “serpente” este ano atravessou 1200 km de percurso durante quatro dias. Perdeu algumas escamas no caminho, mas está feliz da vida na rampa de chegada e na festa de premiação. A farta distribuição de troféus vai do primeiro ao quinto colocado de cada uma das diversas categorias. Pilotos e navegadores de carros e UTVs, os pilotos de motos e quadriciclos. Quase todo mundo leva um prêmio físico para casa. Medalha ou troféu. Até eu ganhei!
Esta edição do Cerapió abre um ano que promete desafios em diversas áreas, por isso, não perco seu ensinamento: se precisar, peça ajuda. Se puder, ajude. Porque, além do corpo e da mente, existe a alma e ninguém deve ficar no caminho! Obrigado Cordão, Flavia e a todos os participantes do Cerapió.






