Há grama no deserto. E ela vem de longe. Os passos que parecem lentos, preguiçosos, são, há milênios, a melhor forma de atravessar essas vastas regiões de pedra e areia. Mercadores daqui não apenas fizeram uma civilização, mas nos ensinaram matemática, álgebra e astronomia, sempre se movendo no lombo desses heróis: os camelos.
Eu ainda não os vi de perto nesta minha primeira cobertura do Dakar, mas seus passos e rastros, no lugar escolhido pela A.S.O. para o segundo acampamento dos pilotos — na chegada da Especial 9 e largada da 10 — deixam claro o recado. Talvez para nos dizer que toda a velocidade dos bólidos da competição mais dura do planeta ainda não pode competir com essas marcas que deixam a esperança de vida.
Quem é que não erra na vida? Quem é que não faz uma cagada? Mas, se ela deixa uma semente de aprendizado, quem sabe um gramado de conhecimento um dia não acaba com o desejo da nossa ignorância.
E ela é tamanha que nem no que acreditar a gente sabe. Fatos, versões, pesquisas, intenções. Nem na realidade é possível confiar totalmente porque ela, a realidade, está limitada ao que nós podemos compreender dela. Se você sentiu que foi muito mal numa atividade, num trabalho, isso sempre vai ser de acordo com as suas perspectivas e as de seus pares próximos. Você termina uma tarefa e acha que foi mal, mas, na sua relação com a perspectiva de outros, pode ser que o que foi mal tenha sido bem, na comparação com a realidade do conjunto. Qual realidade vale?

O piloto brasileiro Lucas Moraes perdeu um waypoint, passagem obrigatória para todos os pilotos que participam do Rally Dakar. Esses waypoints garantem que ninguém vá até a estrada de asfalto melhorar a média de velocidade (o exemplo é absurdo, mas acho que você entendeu) e mantêm o percurso proposto. Por não passar ali, Lucas e seu navegador, o alemão Denis Zenz, foram penalizados com a soma de quinze minutos em seu tempo de prova. Um desastre para quem trabalha para buscar um pódio no final da competição.
Ao terminar a especial, ele me disse, desolado, que o melhor seria já pensar no ano que vem, pois neste acabou: “Erramos muito. Não sei se eu preciso fazer um Dakar como navegador para aprender melhor e saber ajudar na navegação… sei lá. O negócio é esquecer e pensar no próximo”.
Mas a prova teve uma dificuldade grande de navegação para todos os pilotos, e a classificação da especial mudou qualquer previsão de favoritismo. Os mais experimentados perderam tempo, problemas mecânicos se somaram e, ao final, foi o polonês de 21 anos Eryk Goczal quem venceu a prova. O pai dele, Michal Goczal, ficou em segundo. A primeira dobradinha entre filho e pai da história do Dakar.

Na classificação geral, depois dessa especial, é o trabalho de longo prazo que está surtindo efeito. Nani Roma e Carlos Sainz, da Ford, saíram para a décima etapa em primeiro e segundo, separados por 57 segundos. Lucas Moraes, apesar de sua própria frustração, subiu da nona para a oitava colocação.
Como nos lembrou Cristina Gutiérrez, sexta colocada na confusão dessa prova e décima na geral: “Quando ganhei o Dakar na categoria T4, foi no último dia. Num rally, não se pode deixar de acreditar.”
Acelera, Cristina!
*O jornalista Celso Miranda viajou a convite da organização do Rally Dakar.






