Ricky Brabec já venceu duas vezes (2020 e 2024) o Dakar desde que a prova veio para a Arábia Saudita, em 2020. Luciano Benavides, ainda não. As equipes oficiais de Honda e KTM disputam também, com seus patrocinadores, o mercado de energéticos: Monster, da Honda, e Red Bull, da KTM. Enquanto a Monster tem diferentes parcerias com fábricas diversas em outras modalidades, a Red Bull segue fiel à KTM, mas tem patrocínio pessoal a diversos pilotos.
Não apenas por isso a categoria de motos no Dakar tem um peso especial. Os pilotos são — porque devem ser — considerados heróis somente por se inscrever na prova. Além de pilotar pelo maior tempo possível perto dos 160 km/h permitidos na competição (a velocidade é monitorada, e quem ultrapassa recebe penalidade em tempo), eles comandam a moto preferencialmente em pé, seja numa especial de 480 km ou nos deslocamentos.
É desnecessário mencionar: estão bem longe de acelerar tudo isso na previsibilidade do asfalto. Areia dura, fofa, dunas. Caminhos estreitos e sem qualquer referência de trilha. Porque, na moto, o piloto é o navegador também. Um trampinho bem complicado, diria um amigo meu.
Por isso mesmo, Stéphane Peterhansel, hoje correndo de boa nos carros da categoria Stock, é tão reverenciado. O francês ganhou 14 Dakars, sendo seis de moto antes de ir se divertir no conforto do ar-condicionado dos carros. Lá ganhou mais oito vezes. Essa migração foi forçada para vários outros pilotos.
Um deles é o argentino Kevin Benavides, irmão do Luciano, que hoje ainda briga pela vitória contra Brabec. Kevin venceu duas vezes o Dakar e, no ano passado, estava mais uma vez acelerando motos depois de se quebrar muito em diversos acidentes. Em 2025, quando a prova chegou ao seu dia de descanso, ele abandonou a corrida. Não estava apenas cansado, mas “bateu a consciência” quando recebeu uma mensagem do pai, alertando que sua juventude estaria comprometida se sofresse mais um acidente. Era também o dia de seu trigésimo sexto aniversário. O presente foi garantir seu futuro nas participações no Dakar.
Hoje ele está de volta, acompanhado pelo navegador Lichi Sisterna, também argentino, na categoria Challenger. Estava em décimo em sua primeira participação — um bom resultado, considerando que ele anunciou sua aposentadoria das motos apenas no meio do ano passado (2025).
No Brasil, nosso herói (por ser motoqueiro, mas não apenas) tem nome, sobrenome e história. O irmão mais novo de André Azevedo já se destacava no minicross em 1988, quando André, ao lado de Klever Kolberg, era aclamado pelo pioneirismo e atrevimento de colocar o país na prova então conhecida como Paris-Dakar.
Logo, seus caminhos o levaram aos ralis, sendo destaque no Rally dos Sertões, vencendo sete vezes a prova e sagrando-se campeão brasileiro da modalidade outras dez. No Dakar, Jean foi nosso mais vitorioso representante. Foram 18 participações no total: foi sétimo duas vezes (2005 e 2011) e quinto uma vez (2003). Para esses resultados, venceu etapas do Dakar duas vezes (2005 e 2007).

Isso tudo — destaco — sem estar numa equipe oficial de fábrica, sem tudo aquilo que os pilotos apoiados por gigantes como Honda, KTM, Monster ou Red Bull podem proporcionar em termos de logística e conforto. A equipe dele, bem montada, é verdade, tinha patrocínio de empresas brasileiras, capitaneadas pela Petrobras. Bons tempos.
Jean ainda foi o melhor estreante na categoria carros (P23), em 2009, quando o Dakar já estava na América Latina. Em quatro rodas, venceu o Campeonato Brasileiro de Cross Country três vezes (2008, 2009 e 2010) e ganhou o Sertões nos carros em 2009. Ainda teve saúde, competência e técnica para retornar às motos como piloto oficial da Honda Brasil e seguir vencendo provas e campeonatos.
Se hoje vemos o protagonismo não apenas de Luciano ou Ricky, mas também a luta heroica do australiano Daniel Sanders, vencedor do ano passado, que está terminando este Dakar com a clavícula lesionada, temos de reverenciar Jean Azevedo — um piloto de motos que hoje pode ser esquecido pela festa (merecida) que devemos fazer para o jovem Diogo Moreira, que vai estrear no MotoGP este ano, contando com o retorno da categoria ao Brasil na prova de março, em Goiânia.
E, se até aqui não ficou claro quem é Jean Azevedo, lembro dele orientando a nova geração de pilotos da Honda e ainda servindo de coach a tantos outros pilotos de moto nas competições nacionais e internacionais. O que o Dakar tem de dureza, ele levava para seus ensinamentos. Nunca economizou em críticas — construtivas, sim, mas sempre diretas, sem paternalismo.

Uma vez, ouvi dele para um pupilo algo mais ou menos assim: “Você não me fez sair da cama cedo pra acompanhar seu treino e você andar como se estivesse passeando, né? Treino é pra fazer o que você vai fazer na prova: acelerar! Se for pra passear, vai pra casa.”
Porque, num rally, quem está na moto está em risco elevado — e, se for buscar resultado, o risco é ainda maior. O treino exige “sangue nos olhos”, busca de limite, vontade de vencer. É quase igual à vida do(a) brasileiro(a) trabalhador(a) das periferias: extremamente duro e de verdade.
Obrigado, Jean, por nos ter dado esses exemplos de vida também nas pistas.
No Dakar 2026: Luciano ou Ricky? A décima terceira e decisiva especial do Dakar tem apenas 105 km de extensão. Brabec lidera com 3min20s de vantagem sobre Luciano. Que vença o melhor.
*O jornalista Celso Miranda viajou a convite da organização do Rally Dakar.






