Um homem tenta puxar um caminhão de cinco toneladas para fora de uma duna de areia fofa. Areia marrom sobe ao céu, vítima das enormes rodas e da potência do motor diesel do monstro que compete no Dakar. A insignificância do esforço daquele homem, tripulante da máquina, nos faz imediatamente pensar no quanto nos enganamos, mas também no quanto podemos e sabemos sonhar. Nada é impossível.
No Dakar, que se encerra neste sábado aqui na Arábia Saudita, o impossível desta imagem aconteceu. Depois de perder sua vantagem na corrida das motos ainda na quinta-feira, na 11ª especial da competição, Luciano Benavides se mostrava resignado. Como contei aqui, seu adversário, o estadunidense Ricky Brabec, usou a estratégia de parar na pista para deixar que Luciano vencesse aquela etapa e, assim, forçar o argentino a largar como líder no dia seguinte, na 12ª especial.
Dessa forma, como sempre em um rali como este, Luciano estaria em desvantagem por ter de sair na frente do pelotão de motociclistas, abrindo a navegação em busca do percurso correto da prova. Brabec conseguiu, assim, na sexta-feira, andar mais rápido por não ter de navegar e terminou a etapa decisiva com uma vantagem de três minutos e vinte segundos sobre Luciano.
Na etapa de hoje, apenas 105 km seriam percorridos — insuficientes para que o argentino conseguisse ultrapassar o piloto da Honda. Seria. Os deuses do deserto estavam atentos. Brabec liderou a contenda nos poucos quilômetros de prova até que, liderando o pelotão — já que era o líder da geral —, errou o caminho. Perdeu-se. Perdeu tempo.
Luciano vinha logo depois e, ao perceber que estava à frente, já perto do final daqueles 105 fatídicos quilômetros, acelerou ainda mais forte. O que já era uma pilotagem no limite da sua KTM tornou-se algo ainda mais insano. Ao final da prova, todos — todos — estávamos de olho nos cronômetros.
Duzentos segundos… Brabec cruzou o cronômetro duzentos e dois segundos depois de Luciano: 3min22s. Perdeu o que seria sua terceira vitória no Dakar por dois segundos. O que parecia impossível na sexta-feira à noite se materializou na solidez do primeiro troféu de campeão para Luciano Benavides — o primeiro irmão vencedor e também o primeiro a conquistar o Dakar.

No deserto, dia e noite fazem um contraste de temperatura tão forte quanto o da luz e da escuridão. De um dia para o outro, como ensina a sabedoria popular, tudo muda. Mudou.
A foto que descrevi foi clicada pelo brasileiro Marcos Carmona. Um craque desde os tempos do filme e da revelação de fotografias, que, em sua primeiríssima visita a esta prova, venceu o concurso de fotografia que a ASO promove todos os anos. Uma foto aérea e uma foto do chão são escolhidas por uma comissão dos organizadores e também pelo voto popular.
Carmona não veio aqui para fotografar. Ele está hoje no mundo do audiovisual, trabalhando com imagens e documentários. Mas o antigo hábito e a nova câmera que trouxe sempre o acompanham. E lá estava ele, na única especial que acompanhou de perto. Olhou a cena, compadeceu-se do pobre tripulante que sonhava o impossível e, click. Nasceu mais uma imagem icônica do Dakar. Carmona ganhou!

Enquanto os argentinos comemoram sua décima segunda vitória em um Dakar — somando categorias gerais e subcategorias —, nós, brasileiros, temos as vitórias de Jean Azevedo, Luis Mingione e Leandro Torres com Lourival Roldan, e agora o nosso quinto triunfo na categoria Fotografia. Temos oito títulos aqui.
Nos carros, o nosso campeão mundial de rali, Lucas Moraes, viveu um Dakar de muito aprendizado. Sentiu que faltou algo mais, mas sabe que aprendeu muito sobre o carro, a equipe e seu navegador. Em sétimo lugar na geral da principal categoria, ele não vê a hora de retomar os treinos e seguir no Mundial, em Portugal, entre 17 e 22 de março.
Lucas também acompanhou a vitória de seu companheiro de equipe, Nasser Al-Attiyah, que não deu chances ao impossível e venceu a prova pela sexta vez. O piloto da Dacia, vindo do Catar e especialista em desertos, conseguiu vencer mesmo perdendo oito minutos para o vencedor da especial final, o sueco Mattias Ekström. Nasser promete voltar porque, aos 55 anos, ainda tem os recordes de Ari Vatanen e Stéphane Peterhansel para bater. Esse vai longe.

Entre os brasileiros que festejam na prova está o navegador Cadu Sachs, que competiu na categoria Challenger junto com o piloto chileno Ignacio Casale e terminou o Dakar em sexto lugar. Marcos Moraes e Fábio Pedroso cruzaram a rampa na 54ª colocação. Não é impossível terminar o Dakar aos 63 anos — Marcos agora provou isso.
E se os argentinos, e Luciano Benavides em especial, ostentam a glória de ter vencido o Dakar na categoria mais arriscada da prova mais perigosa do rali mundial, o brasileiro Marcos Carmona sai daqui com o ouro das fotos. Ele representa nossos artistas e, em um ano de Globo de Ouro no cinema, mais essa vitória serve de inspiração para nossos pilotos.
Dakar é o lugar do impossível.
*O jornalista Celso Miranda viajou a convite da organização do Rally Dakar.






