No mundo corporativo, a era dos profissionais especialistas já passou. Hoje, tem mais possibilidades de emprego aquele profissional com muitas habilidades ou, no mínimo, muita vontade de fazer e aprender coisas novas. No esporte, vemos muito disso no futebol. Atletas que sabem não apenas marcar gols, mas que também fazem bem a marcação, têm visão de jogo e possuem bom passe são, além de raros, jogadores que quase sempre têm vaga em um time de ponta.
No caso dos esportes a motor, o rally ainda é território de especialistas. Um piloto bom de fórmula, como sabemos, pode ter queda de desempenho a cada mudança de regulamento. Muitos reclamam de acerto diferente, de carro mais “traseiro” ou mais “dianteiro”, enfim. No rally, o piloto não troca de função com o navegador — afinal, seria como colocar um jogador de futebol do ataque para ser goleiro. Mas um piloto de rally, se quiser se destacar, precisa conhecer bem a parte mecânica do carro e, ao menos, entender de navegação para poder ajudar o copiloto ao seu lado.
E nos rallys raid, como o Sertões, no Brasil, e o Dakar — agora em sua 7ª edição na Arábia Saudita (48ª da história) — os pilotos precisam ser verdadeiros “pau pra toda obra”. Isso porque nessas competições existem as etapas maratona, em que piloto e navegador ficam por conta e risco por dois longos dias.
No Dakar, teremos quatro dos treze dias de competição totalmente sem assistência dos especialistas mecânicos. Nesta quarta-feira, centenas de competidores saíram de Al-Ula e pararam em um acampamento no meio do deserto para recarregar as energias, ao mesmo tempo em que resolvem sozinhos quaisquer problemas que seus carros apresentem ao longo dos 525 km de percurso — sendo 451 km cronometrados e 75 km de deslocamento. Os pilotos de moto passam pelo mesmo teste e, no caso deles, sem navegador para sequer dar um palpite ou passar a chave de fenda.
No que diz respeito à velocidade, a disputa foi muito interessante. O vai e vem entre os pilotos na ordem de entrada na especial, conforme a classificação do dia anterior — demarcando o traçado para quem vem atrás — resultou na vitória do sul-africano Henk Lategan, ao lado do navegador Brett Cummings, da Toyota. Nasser Al-Attiyah, com a Dacia, ficou em segundo, ao lado do navegador Fabian Lurquin. Em terceiro, a Toyota satélite da dupla Marek Gorzal e Maciej Marton.
O brasileiro Lucas Moraes foi o exemplo mais claro desse efeito “io-io” entre os competidores. Ele foi o quarto a ir para a especial, ajudou a abrir caminho para todos, mas teve vida complicada na navegação. Foi impossível para Denis Zenz ser perfeito, e isso os colocou apenas na 21ª colocação.
“O dia, como previsto, foi bem difícil para quem estava abrindo a especial. Sem marcas no trajeto, acabamos cometendo um pequeno erro de navegação e também tivemos um pneu furado. A dinâmica é mais complexa, mas, por outro lado, amanhã largamos mais atrás e podemos atacar de novo. Vamos lá,” disse o brasileiro.
Como Lucas cuidou bem do carro hoje, ao menos ele e Denis estão com tudo pronto para descansar e atacar amanhã a especial número cinco, que os levará à cidade de Hail. Serão mais 438 km para os carros, sendo 372 km de trecho cronometrado, e 417 km para as motos, com 356 km cronometrados. A noite de amanhã promete ser longa para os mecânicos. Até lá.
Cardápio da maratona
Para quem ficou curioso para saber o que pilotos e navegadores vão jantar, já que estarão em um acampamento sem maiores estruturas, aqui vai uma fotografia do “menu”

*O jornalista Celso Miranda viajou a convite da organização do Rally Dakar.






