Domingo também é dia de feira. Na nossa terra brasileira, eita coisa boa ir à feira comer pastel e também nos deliciarmos com frutas. Suculentas, enormes, coloridas, cheirosas, saborosas. Preciso enumerar? Acho que não, você já visualizou. Obrigado.
Agora, que tal frutas no deserto? Tâmaras, figos, ameixas, maçãs, romãs — todas presentes nas nossas feiras — são produzidas no deserto desta região da Arábia Saudita. Tudo isso graças ao esforço de quem trabalha em fazendas que dependem de aquíferos alcançados por poços artesianos, responsáveis pela irrigação das plantações em formato circular. Sobrevoando a região, os círculos verdes impressionam pela quantidade e pelo tamanho, contrastando fortemente com a aridez de tanta e tanta areia.
Aqui em Wadi Ad Dawasir, no acampamento número cinco desta edição do Dakar, as frutas apareceram depois da forte ventania que toma conta do lugar nesta época do ano. Foi complicado montar as barracas na área de descanso, mas o ânimo retorna quando avisto a exposição de produtos locais: verdes, vermelhas, amarelas, brilhantes.
Esse mesmo contraste visual foi reservado aos pilotos que partiram de Riade ainda na madrugada para cumprir mais um dia de competição. Foram mais de 877 quilômetros entre o trecho cronometrado da especial número 7 e os deslocamentos até o acampamento. No meio da areia brotam arbustos de raízes tão profundas quanto os poços artesianos e que, mesmo parecendo frágeis, provocam estragos em motos, carros e caminhões que aceleram para escapar das areias e ainda acertar os caminhos propostos no roteiro. Eles só parecem frágeis.
Lucas Moraes conheceu bem a dureza de um desses seres do deserto. Preso na poeira do carro de Cristina Gutiérrez, também do time Dacia do campeão mundial, ele buscava uma alternativa de caminho até acertar em cheio um arbusto, que se curvou e “abraçou” o lado dianteiro direito do bólido número 223. O resultado foram avarias na carenagem de carbono, danos em vários detalhes aerodinâmicos e a quebra do farol daquele lado do carro. Um bom estrago.

“Eu buscava a ultrapassagem, mas a poeira que se forma nesse tipo de piso deixa impossível prever o que tem pela frente”, contou Lucas. Depois disso, veio um furo de pneu, e o que estava sendo uma corrida para ao menos o terceiro lugar terminou com o brasileiro em quinto nesse dia. Ainda assim, ele subiu uma posição na classificação geral, passando de décimo para nono, ficando a apenas dois minutos do líder geral, Nasser Al-Attiyah, outro piloto da Dacia, que segue no topo da competição.
“Sabíamos que seria uma etapa rápida e longa. Estou feliz com o resultado e com o trabalho do meu navegador, Fabian Lurquin, porque controlamos bem o ritmo e mantivemos a liderança”, contou o cinco vezes vencedor da prova.
Nasser, na verdade, contou com um pouco de sorte. Quem vinha com tudo para vencer a etapa e assumir a liderança era o sul-africano Henk Lategan, com sua Toyota. Ele liderava confortavelmente até que, a cerca de 25 ou 30 quilômetros do fim da especial, teve um problema no amortecedor traseiro direito. Isso desencadeou outras falhas mecânicas e a equipe perdeu muito tempo ao realizar a troca ainda durante a prova. “Uma pena”, lamentou o piloto, que já enfrentou muitos problemas neste Dakar.
Com dois pilotos fora da briga, sobrou para Mattias Ekström, da Ford, vencer a etapa. Mais uma vez consistente, ele ficou mais de quatro minutos à frente do segundo colocado, o português João Ferreira, da Toyota. O norte-americano Mitch Guthrie, também da Ford, completou o pódio em terceiro.
A semana de trabalho segue no Dakar com a etapa oito, em volta das fazendas de Wadi Ad Dawasir: mais 481 quilômetros de especial e outros 236 de deslocamento. Nossa torcida é para que romãzeiras, tamareiras, figueiras e também os anônimos arbustos fiquem fora do caminho. Afinal, os pilotos enfrentarão a etapa pré-maratona (sim, mais uma) e precisarão acertar suas estratégias com muita velocidade se quiserem seguir na briga pela vitória quando voltarmos a Yanbu, no próximo sábado.
Em tempo: nas motos, o australiano perdeu mais uma etapa, mas segue líder. O vencedor foi novamente o argentino Luciano Benavides, que se aproxima do norte-americano Ricky Brabec na disputa pelo segundo lugar. Não recebemos nenhuma informação sobre encontros entre motoqueiros e arbustos…
*O jornalista Celso Miranda viajou a convite da organização do Rally Dakar.






