Carmen acordou cedo, mas já está “enojada”. Como ela é espanhola, não tem nojo de nada; só está irritada, aborrecida (tradução do termo em espanhol), enquanto busca uma vaga no ônibus que vai nos levar ao aeroporto. Depois dessas mais de duas semanas de cobertura, o time de imprensa que acompanha o Dakar tem seus desafios, apesar do “luxo” de viajar de avião entre as cidades que sediam os acampamentos. Acordar de madrugada, fazer as malas, desmontar a barraca tentando eliminar a poeira, arrastar tudo isso por mais de cem metros de areia (às vezes bem fofa) até os ônibus, achar um lugar no maleiro, chegar ao aeroporto, esperar na fila para o check-in, achar um lugar no avião, desembarcar no destino, buscar a bagagem e fazer tudo de novo a caminho do novo acampamento. Cansa, causa uma certa irritação, mas nojo mesmo, como conhecemos a palavra em português, não.
Normalmente eu até estaria irritado, mas esses dias aqui me ajudaram a lidar com pequenas frustrações do dia a dia e a observar melhor as grandes frustrações que os competidores vivem nessa prova. E já estou, na verdade, neste meu décimo sexto dia de viagem, com uma certa nostalgia dessa minha primeira experiência no Dakar. Enquanto escrevo aqui na sala de imprensa de Al Henakiyah, os pilotos estão acelerando entre montanhas, sobre pedras pontiagudas, em busca de alguma possibilidade de glória. Para a turma dos profissionais, vencer é o que importa. Para os demais, a maioria, terminar o Dakar é o que vale.

Ontem mesmo troquei mensagem com um jogador de pôquer que, depois que descobriu os UTVs, se apaixonou pelos ralis. Amar mesmo, ele ama a família. Enio Bozzano já competiu no Dakar como piloto de UTV e retornou agora como navegador. Chegou até a segunda maratona e viu seu piloto, Pablo Copetti, preferir abandonar a prova depois de problemas mecânicos. Frustração que ele poderia compensar com uma participação no Sertões. A ver.
Outro brasileiro da prova, Luciano Gomes, foi embora muito triste mesmo — “enojado”, diriam em espanhol. Irritado com uma queda, um dedo quebrado e o abandono. Maykel Justo, outro de nossos craques na navegação, também foi embora mais cedo. Marcos Moraes e Fabio Pedroso foram forçados a abandonar a prova num dia, retornaram para seguir até Yanbu no próximo sábado, mas não devem receber a medalha de quem fez a prova toda.
Frustrações que não se comparam a um banho frio de vez em quando, uma fila longa para embarcar no avião ou praticar “baggage drag” até o ônibus. Afinal, estou no Dakar, e todos os dias eu posso ver astros do rali demonstrando sua humanidade ao final de cada etapa. Um bom exemplo foi Sebastian Loeb, triste e cansado depois de terminar a nona etapa sem direção assistida no carro, após ter perdido a rota certa. Mattias Ekström, sem palavras depois de sentir que perdia a chance de estar na briga pela vitória. E isso ainda faltando cinco especiais para o final da competição.
Os torcedores argentinos, nesta quinta-feira, ao final da décima primeira especial, também estavam irritados. Com razão? Na briga pela vitória nas motos, Luciano Benavidez, piloto da KTM, está numa disputa direta com o estadunidense Ricky Brabec, da Honda. Na etapa de hoje, Brabec simplesmente parou a moto no final da especial depois que percebeu que venceria e teria de largar amanhã abrindo os caminhos à frente do adversário. Argentinos — e não apenas eles — estavam literalmente, e em espanhol, enojados com o que viram.

Luciano não demonstrava irritação quando falamos com ele. Aceita que amanhã sai na frente e vai buscar a vitória. Bravo! Nos carros, falei com um bem tranquilo Lucas Moraes, que teve um pneu furado e um ligeiro desentendimento com o roteiro, mas acabou de novo em ritmo forte e subiu para a P7 na classificação geral. Lucas já superou algumas frustrações nessa edição do Dakar, mas, como estreante na equipe Dacia, ao lado do navegador Dennis Zenz pela primeira vez e ainda entre os dez melhores da prova, não dá pra se frustrar. Sem irritações.

O catariano Nasser Al-Attiyah segue na liderança da prova, com 8m40s de vantagem sobre o espanhol Nani Roma. Sebastian Loeb é o terceiro, 18m37s atrás de Nasser. Numa noite que promete ser fria aqui em Al Henakiyah, vou para a barraca, me enfiar no saco de dormir e sonhar com a Rita Lee de novo. Sim, ontem ela me apareceu para cantar um trecho de Mamãe Natureza, uma obra-prima:
“…Estou no colo da mãe natureza
Ela toma conta da minha cabeça
É que eu sei que não adianta mesmo a gente chorar
A mamãe não dá sobremesa”
Canção perfeita para o belo cenário aqui da Arábia Saudita onde chove na primavera, onde as montanhas são de quartzo e as areias engolem favoritos. Quem vive por aqui sabe que é Ela quem manda.
Só Ela sabe quem vai ganhar esse Dakar.
*O jornalista Celso Miranda viajou a convite da organização do Rally Dakar.






