Quando mais de 150 pilotos de motos, carros, UTVs e quadriciclos encaram um deserto por mais de 340 km, com certeza teremos assunto por muito tempo. Muitas histórias. Mas aqui eu prometo contar o principal e destacar dois resultados do dia.
O que mais me chamou a atenção foi a prova das motos. Os pilotos encararam as dunas da região de San Rafael, na província argentina de Mendoza, enfrentando temperaturas de dois graus e passando por trechos onde uma fina camada de gelo fazia esses apaixonados por aventura se perguntarem: “O que é que estou fazendo aqui?”.
Antes mesmo de pensar em aliviar o ritmo, o líder da prova seguiu acelerando da mesma forma que na primeira etapa. Daniel Sanders venceu pelo terceiro dia consecutivo. Agora, ele tem vantagem de 13m18s sobre o espanhol Tosha Schareina e 15m58s sobre o argentino Luciano Benavides, vencedor do Dakar.
O brasileiro Bruno Crivilin segue fazendo uma bela estreia na categoria Rally2. Ele terminou o terceiro dia em terceiro lugar e assumiu a segunda colocação na classificação geral da categoria, atrás apenas do companheiro de equipe na Honda, o português Martin Ventura.
Quando encarou as dunas semi congeladas, Bruno até lembrou das trilhas mais sinuosas de Minas Gerais e do Jalapão, mas afastou qualquer memória e seguiu sua excelente adaptação aos ralis, mais uma vez impressionando tanto a equipe Honda Monster quanto a imprensa que cobre a competição.
Nos carros, a vitória foi do sul-africano Henk Lategan, da Toyota, marca que conquistou assim sua 12ª especial em 15 disputadas no Ruta 40. Com esse resultado, Henk assumiu a liderança da prova, com 1m39s de vantagem sobre o companheiro de equipe, o norte-americano Seth Quintero.
O francês Sébastien Loeb, da equipe Dacia, terminou o dia em segundo lugar e subiu para a quinta colocação na classificação geral. Já Nasser Al-Attiyah, do Catar, fechou a etapa em quarto e manteve a terceira posição na geral, com 5m28s de desvantagem para o líder, Lategan.
Batida nas dunas
Tem gente que usa a palavra azar. Outros preferem falar em falta de sorte. Mas acredito que hoje o atual campeão mundial, o brasileiro Lucas Moraes, da equipe Dacia, teve mesmo foi um livramento.
Ele se envolveu em uma batida quase frontal no km 94 da especial. Foi assim: ele e seu navegador, o alemão Dennis Zenz, buscavam um waypoint do percurso — passagem obrigatória, punida com tempo em caso de erro — quando acabaram saindo da rota correta. Eles se perderam e passaram a seguir no sentido contrário nas dunas, encontrando o português João Ferreira.
Por milímetros, a frente dos carros não se chocou de forma totalmente frontal. Ainda assim, a batida provocou o capotamento do carro do português. João, porém, teve sorte: o veículo caiu sobre as quatro rodas e ele conseguiu seguir na prova.
Já o carro de Lucas teve quebra da suspensão traseira direita no impacto e precisou abandonar a especial. Se a colisão tivesse sido totalmente frontal, qualquer um dos quatro tripulantes poderia ter sofrido ferimentos graves. Felizmente, nada aconteceu.
Lucas, Zenz e o que restou do Dacia número 223 foram resgatados pela equipe e devem voltar à prova nos próximos dois dias, mas as chances de um bom resultado agora são praticamente nulas.
Nesta quinta-feira, 28 de maio, a competição segue com o comboio de 150 pilotos retornando para San Juan em mais uma etapa dura: serão 324 km de especial e outros 310 km de deslocamentos.
Seguimos na cobertura.
*O jornalista Celso Miranda viajou a convite da equipe Dacia Sandriders.




