Imagine você chegar na festa de sua nova turma da escola, ou do trabalho. Ou mesmo na família do seu namorado ou namorada. O lugar, a festa... todos se conhecem e você lá, pela primeira vez. Por mais que todos estejam fazendo o máximo para você se sentir à vontade, você, naturalmente, se sente um pouco... deslocado.
Nas últimas semanas, o esporte a motor, tanto no Brasil quanto na Europa, viveu momentos parecidos. Há duas semanas, o holandês Glen Coldenhoff, piloto de motocross que foi o terceiro colocado no Mundial do ano passado, estreou no Campeonato Brasileiro pela equipe IMS C6 Bank, na pista de Canelinha, em Santa Catarina. Foi mal! Ele mesmo admitiu. Moto diferente, mecânicos, equipe e, principalmente, a pista... Duas semanas depois, na segunda etapa do campeonato em Ponta Grossa, no Paraná, ele recebeu uma moto mais ao seu gosto, lembrou quem ele era e a chuva apareceu para deixar a pista do jeito que ele gosta. Largou nas duas corridas do dia em primeiro lugar e, apesar do tombo na primeira prova, fez muitas ultrapassagens e deu show na lama. Venceu uma corrida e parecia mais "em casa". Se não no campeonato, que é liderado pelo brasileiríssimo Gaúcho Enzo Lopes, da equipe Honda, ele estava pelo menos em sua própria pele de piloto internacional consagrado.
Também vivendo dias de estreantes estão feras campeãs do mundo, como o turco Toprak Razgatlioglu e o brasileiro Diogo Moreira. Diogo, campeão da Moto2, e Toprak, tricampeão do WorldSBK. Incontestáveis em suas competências, passaram as quatro primeiras etapas do MotoGP como coadjuvantes, tentando se adaptar a tudo: motos sofisticadas e cheias de regulagens específicas, equipes e protocolos bem diferentes, e até à atenção da imprensa e fãs. Toprak tem o desafio de estar na equipe satélite da Yamaha, que também sofre com a novidade dos novos motores V4, que a marca está estreando agora, bons anos depois dos concorrentes. Já Diogo chegou na equipe LCR Honda com contrato longo, e a disposição da Honda de tratá-lo como estrela do futuro em fase de aprendizado. A equipe que o acolheu tem até um patrocinador brasileiro, a Mila Moto, concessionária Honda de Jundiaí-SP, para deixá-lo ainda mais em casa e com o apoio da torcida. Mesmo assim, o brasileiro não está tão à vontade. Ele quer marcar pontos em todas as corridas, e quando isso não acontece, fica aquele sabor meio... chato.
Ao contrário deles, em suas desventuras profissionais, eu estive pela primeira vez na competição do BITES, Campeonato Brasileiro de Big Trails, e me senti em casa. Não apenas pelo acolhimento da organização do evento, mas pela galera que compete ali. O off-road tem uma vibe diferente de qualquer competição. Todo mundo se ajuda, todo mundo é amigo de muitos anos, desde a semana passada. A prova rolou num circuito de sete quilômetros em Sorocaba, no Monte Verde Ranch, que se caracterizou pela velocidade. Os mais arrojados amaram, e os menos arrojados gostaram também. Afinal, no BITES, a pegada não é domínio puro dos mais fortes. O campeonato tem etapas mais travadas e obedece ao mantra de seu organizador e criador, Gustavo Narciso: "tem para todo mundo". É uma forma de colocar na terra motos que talvez nunca seriam usadas nessas condições, mas que são capazes de encarar a prova e ainda levar seu piloto para casa. No melhor estilo das pioneiras provas de enduro, das quais eu mesmo participei nos anos 80. Raiz.
Vou deixar aqui o site para todos buscarem os resultados, porque eu mesmo fui ao BITES a convite da Mila Moto para ver seus quatro pilotos, que se deram bem na jornada. Ryan Barreto foi o vencedor na classe Trail, entre os pilotos da Pró. Valdirzinho venceu na infantil, Theo Schievano foi P2 na infantil, e Mariana Bubula ficou em P2 na Tourist Trophy Feminina, voltada para estreantes.
Da próxima vez no BITES, estarei mais em casa ainda e, quem sabe um dia, ainda encaro a trilha numa moto. A pé, eu já tenho vontade.
MotoGP e motocross brasileiro
A vitória em Jerez de La Frontera, no MotoGP, foi do espanhol Marc Márquez, da Ducati, na corrida sprint, e do irmão dele, Álex, na corrida principal no domingo. Ali, a briga está boa entre as Aprilias de Marco Bezzecchi e Jorge Martín, que lideram o campeonato.
No motocross brasileiro, Enzo Lopes lidera o campeonato, com duas vitórias e dois segundos lugares. O belga Jeremy Van Horebeek, da equipe Honda, venceu a primeira corrida em Ponta Grossa (PR), mas não terminou a segunda prova.
*Por Celso Miranda
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do BandSports.




