Como andar rápido num lugar lotado de pedras de todos os tamanhos, todas elas bem agudas, por quase quatro horas, e não furar nenhum dos quatro pneus? Pergunto porque, mesmo num passeio off-road qualquer, motoristas e até pilotos ficam medindo a trajetória para não viver o incômodo de ter de trocar pneu. No plural, então… E quando falo em andar rápido, estou falando em máximas de até 170 km/h.
Nas dunas de areia, essa velocidade transforma os carros de rally em verdadeiras pranchas de surf. Os mais experientes “surfam” de boa: aceleram desde a aproximação, dosam a entrada de potência no meio e até freiam na crista da onda — digo, da duna. Encaixam as rodas do outro lado e mandam o pé de novo quando começa a descida. Descrever é fácil. Praticar essa arte exige, mais do que tudo, experiência.
Os grandes nomes dos rallys não nasceram sabendo, nem começaram vencendo. Nasser Al-Attiyah está com a mão na taça pela sexta vez no Dakar. Conquistou, na décima segunda especial, sua vitória de número 50, igualando lendas como o finlandês Ari Vatanen e o francês Stéphane Peterhansel. Ele entra neste sábado para a 13ª e última etapa da prova com 15 minutos de vantagem sobre o espanhol Nani Roma, da Ford, e 23 minutos sobre o sueco Mattias Ekström, também da Ford. Nasser deu show de calma e precisão neste Dakar.
Quando comecei a falar mais de rally, há muitos anos, recebia na TV a divulgação dos campeonatos na Península Arábica. O então jovem Nasser Al-Attiyah aparecia nas imagens acelerando como destaque. Venceu muitas vezes nos rallys de velocidade e conquistou nada menos que 18 títulos no Campeonato do Oriente Médio. No cenário internacional, faturou o título mundial de rally na categoria Production, em 2006.
Daí pra frente, foi empilhando troféus e conquistas em todo tipo de prova off-road até sua primeira vitória no Dakar, em 2011, quando a competição era disputada na América Latina. Hoje, aos 55 anos — ele nasceu em 1970 — Al-Attiyah está prestes a sagrar-se seis vezes campeão do Dakar, o mais prestigioso título que um piloto de off-road pode buscar.
Em sua terceira temporada na equipe Dacia, ele conhece bem o carro e a região. Ajuda o navegador e já desenvolveu a calma e a precisão necessárias para ser rápido sem furar pneus (ou com muito poucos furos), o que significa ao menos dois minutos a menos — ou a mais — no tempo de cada especial. Na especial 12, essa habilidade gerou espanto no estreante da equipe, o atual campeão mundial de Rally Raid (W2RC), o brasileiro Lucas Moraes.
O brasileiro teve dois pneus furados nessa etapa e chegou em 16º, dezesseis minutos atrás do companheiro. Lucas está estreando no time, trabalha pela primeira vez com o navegador alemão Dennis Zenz, conquistou o título mundial de 2025 com a Toyota e fez apenas um treino com o carro antes deste Dakar. Não sei na sua conta, mas na minha o sétimo lugar que ele ocupa na classificação geral, antes da etapa final deste sábado, está de muito bom tamanho.
Lucas, porém, é daqueles que buscam referência em seus pares e na própria sensação de velocidade. “Nesta especial furamos dois pneus e, depois do segundo furo, faltando mais de 100 km para o final, ativamos o modo sobrevivência e chegamos. Foi um Dakar muito difícil, muito abaixo da expectativa.”
Sobre os atenuantes descritos, ele ainda afirmou: “Tem tudo isso, sim, mas foi abaixo do que a gente estava imaginando. Ao menos o time está bem, com a liderança do Nasser, e o Loeb ainda tem chance de pódio”.
Lucas sabe que o rally é um esporte de equipe e que a experiência de Nasser, em sua quase sexta vitória, e os sete títulos mundiais de Loeb no WRC ainda vão se somar aos seus conhecimentos. Ele é quem precisa lembrar que foi campeão mundial com a leveza de quem não carregava qualquer pressão por resultados — e isso muda tudo.
Amanhã, na rampa que recebe os pilotos ao final desta edição do Dakar, ele estará na foto do time vencedor, já pensando na próxima etapa do Mundial, entre 17 e 22 de março, em Portugal.
*O jornalista Celso Miranda viajou a convite da organização do Rally Dakar.






