Não é possível acertar sempre. Acho que já te contaram isso, né? Estamos em plena Copa do Mundo nesta semana que abre o mês de julho. Ainda tem festa julina, relaxa. Para quem está na expectativa de mais um título mundial de futebol, até o fato de estarmos há 24 anos sem vencer anima. Esse já é o maior período de jejum da nossa história. Até aqui. Impossível acertar sempre, mas acho que não vai rolar este ano, não... Impossível acertar sempre.
Do futebol para o mundo dos motores, porque, se no futebol ainda temos muitas dúvidas, no negócio de acelerar o Brasil está entrando no segundo semestre de 2026 com um bocado de conquistas. Se ainda não há título definido, as vitórias estão se espalhando e encantando. Vou começar pelos mais improváveis e, mesmo assim, pouco publicados, como Eric Granado vencendo a primeira corrida de Assen, na Holanda. O piloto da Honda Brasil, desde sempre, está andando na frente nas corridas do torneio das Harley Baggers (que substituiu as motos elétricas), na programação dos eventos da MotoGP. Sofreu algumas quedas, mas chegou à sua primeira vitória, pulou para a liderança da tabela de pontos daquele certame e já é um dos favoritos para levantar a taça. Anote!
Tem a Seleção Brasileira de Motocross se preparando para o Motocross das Nações, em outubro, numa preparação inédita na história desse esporte. As esperanças são verdinhas... e amarelas para um inédito top 10 entre 70 países.
E tem a Tati. Tati Paze. Conhece? Bem, nos Estados Unidos, a fabricante indiana Royal Enfield alinha, no campeonato nacional MotoAmerica, uma categoria exclusiva para mulheres que constroem suas motos e fazem de tudo nas próprias máquinas no fim de semana de corrida. O programa é conhecido como Build Train Race. O Brasil está representado este ano por quatro pilotas: Tati Paze, Karina Simões, Sany Falci e Juliana Bernardes.
Tati e Karina foram as pioneiras a encarar o processo de construir suas motos a partir de uma Continental 650, mudando chassi, rodas, escapamentos, freios e aliviando peso onde fosse possível. Depois passaram por um programa de treinos e iniciaram as corridas do campeonato nacional MotoAmerica. As duas enfrentaram um longo aprendizado ao longo de oito corridas em diferentes pistas, orientadas por uma equipe comandada pelo bicampeão mundial de MotoGP Freddie Spencer. Karina e Tati evoluíram MUITO nesse processo e, neste ano, passaram a disputar as corridas no pelotão da frente.
Depois da primeira prova do ano, Tati Paze passou a conquistar pódios com regularidade: terceiro, segundo, terceiro e, na última corrida disputada no estado de Washington, na costa oeste, veio a primeira vitória. Tati Paze, que é instrutora de pilotagem de moto, influencer, comentarista e agora também piloto vencedora de corridas, contou no programa SUPERMOTOR, no dia 1º de julho, a emoção — e também o orgulho — de vencer sua primeira prova, levando a bandeira brasileira ao alto do pódio:
“Celso, eu fiquei mesmo FELIZ DEBAIXO DO CAPACETE quando cruzei a linha de chegada. Tanto que gritei e gritei. Gritei muito porque não é só ganhar uma corrida, mas saber o quanto tive de me dedicar para mudar um bocado de coisas na minha vida para chegar a esse dia, a essa vitória.”
Ela, a vitória, veio depois de um tombo nos treinos, quatro trocas de pneus por causa da chuva que ia e vinha (no programa Build Train Race, as pilotas selecionadas têm de fazer sozinhas a manutenção completa das motos, contando apenas com a orientação dos três mecânicos que atendem a Royal nas pistas) e muita tensão.
Mesmo depois da queda nos treinos, Tati conquistou a pole position, mas teve de passar horas extras na pista para remontar a moto, que havia ficado torta, e instalar uma nova carenagem, sem pintura, mas ostentando o número 55, escolhido por ela ainda no ano passado.
Na corrida, a disputa pela primeira posição levou Tati a usar todos os aprendizados para fazer algo inédito para ela.
“Estudar minha adversária! Pela primeira vez consegui correr estudando os erros e acertos da menina e melhorando onde eu já estava bem na pista. Foi incrível demais, maravilhoso, indescritível. Não tem palavras para expressar o sentimento. Neste último ano eu mudei muita coisa na minha vida para poder aproveitar ao máximo essa oportunidade que a Royal está nos proporcionando. Academia, alimentação, descanso. Tudo isso porque não tenho tempo para treinar de moto no Brasil. Eu só vou para a pista quando viajo aos EUA para competir.”
O feito de Tati Paze precisa ser reconhecido e festejado porque ela já não é nenhuma garotinha. Uma mulher que passou dos 40 anos costuma ter poucas oportunidades de começar qualquer coisa no esporte. Mesmo com a experiência anterior como instrutora de pilotagem, competir exige outro nível de dedicação na busca por desempenho. Que dirá buscar — e conseguir — vencer adversárias mais jovens, mais treinadas e até mais leves. Tati tem 1,78 m de altura!
O grito na linha de chegada em Washington foi a explosão de uma mulher que superou, com muito trabalho e amor, todos os desafios do caminho.
“E quero deixar aqui a minha gratidão a todos que me apoiaram e, em especial, às minhas parceiras brasileiras nessa disputa. Karina, Sany e Juliana vibraram de verdade comigo e me ajudaram muito a chegar a essa vitória.”
Agora Tati vai para a última etapa do campeonato com chances de ser campeã. Seria muito bom, claro. Mas ela já é vencedora.
Valeu, Tati.




